Por Rogério Gomes de Melo*
Em muitas famílias a preocupação começa na infância com uma frase que se repete muito nas consultas: “Ele praticamente não come”. Às vezes a criança aceita poucos alimentos. Em outras situações, tolera apenas uma textura específica ou exige que a comida seja sempre preparada da mesma maneira.
A seletividade alimentar faz parte do desenvolvimento infantil em alguma medida. Muitas crianças passam por fases em que recusam alimentos novos ou restringem temporariamente o que comem. No entanto, quando essa seletividade aparece em crianças neurodivergentes, o fenômeno costuma ter camadas mais profundas.
No consultório percebo que isso é muito evidente. A recusa nem sempre está ligada ao sabor. Muitas vezes envolve textura, cheiro, aparência ou até a forma como os alimentos estão organizados no prato.
Comer também é uma experiência sensorial
Quando se fala em alimentação infantil, costuma-se imaginar apenas nutrientes, porções e grupos alimentares. Mas para muitas crianças neurodivergentes a experiência de comer começa antes de provar o alimento.
O alimento chega acompanhado de estímulos sensoriais que podem ser intensos. Uma textura muito úmida, um alimento crocante demais ou um cheiro mais marcante pode provocar desconforto real.
Nesse contexto, a recusa alimentar deixa de ser simplesmente uma escolha ou um comportamento opositor. Em muitos casos, é uma tentativa da criança de evitar uma experiência sensorial que o corpo interpreta como desagradável.
Esse detalhe muda completamente a forma como o problema precisa ser abordado.
O olhar da nutrição humanizada
Como nutricionista clínico que trabalha com uma abordagem humanizada e inclusiva, aprendi que ampliar o repertório alimentar de uma criança raramente começa com pressão para que ela coma algo novo.
Antes de pensar em variedade alimentar, é preciso entender como aquela criança se relaciona com a comida. O que ela evita. O que tolera. O que desperta curiosidade. O que provoca rejeição imediata.
Na maioria das vezes o avanço acontece em etapas muito pequenas. Uma criança que não aceita determinado alimento pode, inicialmente, apenas observá-lo no prato. Em outro momento, talvez toque nele. Em uma etapa posterior, aceite levá-lo à boca.
Do ponto de vista nutricional, essas etapas são importantes. Elas mostram que a relação com o alimento está sendo construída, não imposta.
Quando a mesa vira um espaço de tensão
Famílias que convivem com seletividade alimentar intensa costumam carregar um grande peso emocional em torno das refeições. Há preocupação legítima com o crescimento, com a qualidade da alimentação e com o futuro da criança.
Esse cenário frequentemente transforma o momento de comer em um espaço de cobrança. A criança sente pressão para provar alimentos. Os pais sentem frustração quando isso não acontece.
No acompanhamento clínico, uma parte importante do trabalho envolve reorganizar essa dinâmica. Nem sempre o foco inicial é fazer a criança comer mais, mas devolver alguma tranquilidade às refeições.
Quando a tensão diminui, a criança tende a se sentir mais segura para explorar alimentos novos.
Nem toda seletividade é igual
Outro ponto importante é reconhecer que a seletividade alimentar não segue um único padrão. Algumas crianças evitam alimentos misturados. Outras rejeitam preparações muito úmidas. Há também quem aceite alimentos apenas dentro de um repertório muito específico de cores, marcas ou formatos.
Essas diferenças revelam que o comportamento alimentar pode estar ligado a múltiplos fatores, incluindo processamento sensorial, previsibilidade da rotina e experiências anteriores com determinados alimentos.
Por isso, intervenções padronizadas raramente funcionam bem.
Um cuidado que costuma ser compartilhado
Na prática clínica, o acompanhamento da seletividade alimentar associada à neurodivergência quase sempre se beneficia de um trabalho multiprofissional. Nutricionistas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e psicólogos observam dimensões diferentes da mesma experiência alimentar.
Enquanto a nutrição acompanha o estado nutricional e a ampliação do repertório alimentar, outras áreas ajudam a compreender aspectos sensoriais, motores e emocionais que influenciam diretamente o momento da refeição.
Quando esse cuidado acontece de forma integrada, as estratégias costumam ser mais ajustadas à realidade da criança.
Pequenos movimentos que fazem diferença
Famílias frequentemente esperam mudanças rápidas. A realidade costuma ser mais gradual. Algumas crianças ampliam o repertório alimentar lentamente, testando limites e criando novas referências sensoriais.
Ainda assim, é possível observar avanços que nem sempre aparecem à primeira vista. A tolerância a novos alimentos na mesa. A curiosidade por uma comida que antes era rejeitada. A aceitação de pequenas variações na textura ou na apresentação.
Esses movimentos indicam que algo está mudando na relação da criança com a comida.
No fim das contas, trabalhar com seletividade alimentar em contextos de neurodivergência exige um equilíbrio delicado entre cuidado nutricional e respeito à singularidade de cada criança. Comer não é apenas ingerir nutrientes. É também uma experiência sensorial, emocional e social que se constrói aos poucos.
Quando esse processo é conduzido com escuta e sensibilidade, a alimentação deixa de ser um campo de disputa e passa a se tornar, gradualmente, um território de descoberta.

Rogério Gomes de Melo é Nutricionista, formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em nutrição clínica e esportiva. Foco de atuação em nutrição inclusiva com crianças e adolescentes, idosos e público neurodivergente.

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