ARTIGO: Seletividade alimentar e autismo: o que muda no olhar da nutrição

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A recusa pelos alimentos nem sempre é pelo gosto. Textura, cor e outros fatores podem explicar a recusa por alimentos. FOTO: Pexels

 

Por Rogério Gomes de Melo*

No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, 21 de março,  o foco costuma ir para comunicação, comportamento e inclusão escolar. A alimentação nem sempre entra nessa conversa, embora faça parte da rotina diária e, em muitos casos, seja uma das maiores preocupações das famílias.

Nos atendimentos, é comum ouvir relatos de crianças que aceitam poucos alimentos, recusam novidades ou só comem dentro de um padrão muito específico. Em crianças autistas, esse cenário tende a ser mais intenso e mais duradouro.

A seletividade alimentar, nesse contexto, não é apenas uma fase passageira.

Quando o problema não está no sabor

Uma das primeiras mudanças de perspectiva acontece quando se entende que a recusa alimentar nem sempre está ligada ao gosto. Em muitas situações, o fator determinante é sensorial.

Textura, cheiro, temperatura, aparência e até a organização no prato podem influenciar diretamente a aceitação. Um alimento mais úmido, uma mistura de preparações ou um cheiro mais forte pode gerar desconforto real.

Para algumas crianças, a previsibilidade também pesa. Comer o mesmo alimento, preparado da mesma forma, traz segurança. Qualquer variação pode ser interpretada como algo estranho.

Essa combinação ajuda a explicar por que estratégias baseadas apenas em insistência ou exposição rápida tendem a falhar.

A refeição como experiência sensorial

Do ponto de vista nutricional, comer não envolve apenas ingestão de nutrientes. Envolve uma experiência completa.

No autismo, essa experiência pode ser mais intensa. O que para um adulto passa despercebido, para a criança pode ser difícil de tolerar.

Nesse cenário, a recusa deixa de ser vista como oposição. Em muitos casos, funciona como uma forma de evitar uma sensação desagradável.

Esse entendimento muda a condução do cuidado.

Impactos na rotina e no estado nutricional

A seletividade alimentar associada ao autismo pode levar a uma dieta bastante restrita. Em alguns casos, há risco de inadequação de nutrientes. Em outros, o padrão alimentar se mantém dentro de um grupo limitado de alimentos, com alta repetição.

Além da composição da dieta, a rotina também é afetada. Refeições podem se tornar momentos de tensão, com tentativas de negociação, pressão para que a criança coma ou uso de distrações para facilitar a aceitação.

Essas estratégias surgem como tentativa de resolver o problema imediato, mas nem sempre contribuem para mudanças consistentes.

O papel da nutrição nesse cenário

A atuação do nutricionista, nesses casos, começa pela escuta e pela observação. Antes de propor mudanças, é preciso entender como a criança se relaciona com a comida.

Isso inclui identificar padrões de aceitação, possíveis gatilhos sensoriais e a dinâmica familiar em torno das refeições.

A ampliação do repertório alimentar costuma acontecer de forma gradual. Em vez de focar apenas na ingestão, o processo envolve diferentes níveis de contato com o alimento.

A criança pode, inicialmente, tolerar o alimento no prato. Depois, aceitar tocar. Em outro momento, aproximar da boca. Esses passos fazem parte da construção da relação com a comida.

Do ponto de vista clínico, são sinais relevantes.

Por que intervenções padronizadas não funcionam bem

Cada criança apresenta um perfil diferente. Algumas evitam alimentos misturados. Outras rejeitam determinadas texturas. Há também aquelas que aceitam apenas alimentos de marcas específicas.

Essa diversidade de respostas mostra que não há um único caminho. Protocolos rígidos ou abordagens generalistas tendem a ter pouco efeito quando não consideram essas particularidades.

A individualização da conduta é parte central do cuidado.

Um trabalho que costuma ser compartilhado

Na prática, o acompanhamento da seletividade alimentar no autismo frequentemente envolve mais de uma área. Nutrição, terapia ocupacional, fonoaudiologia e psicologia contribuem com diferentes perspectivas.

Enquanto a nutrição acompanha o consumo alimentar e o estado nutricional, outras áreas ajudam a compreender questões sensoriais, motoras e comportamentais.

Quando há alinhamento entre os profissionais, as estratégias tendem a ser mais coerentes e aplicáveis no dia a dia.

Pequenos avanços, mudanças reais.

Famílias costumam esperar mudanças rápidas, especialmente quando a alimentação está muito limitada. Porém, o processo, na maioria das vezes, é mais lento.

Os avanços nem sempre são evidentes no início. A criança que aceita o alimento no ambiente, que observa sem rejeitar, que tolera pequenas mudanças na apresentação…

São movimentos indicativos de que a relação com a comida está em transformação.

No contexto do dia 21 de março, ampliar o olhar sobre o autismo também passa por reconhecer essas questões do cotidiano. A alimentação faz parte da experiência da criança e da dinâmica familiar.

Quando o cuidado respeita as particularidades sensoriais e o tempo de cada criança, a refeição deixa de ser apenas um ponto de conflito e passa, aos poucos, a se tornar um espaço possível de construção.

 

*Rogério Gomes de Melo é Nutricionista, formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em nutrição clínica e esportiva. Foco de atuação em nutrição inclusiva com crianças e adolescentes, idosos e público neurodivergente.

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