Simpósios da Endogastro Academy debatem impactos das novas drogas para tratamento da obesidade

Francisco Bandeira (centro) no debate sobre o fim da bariátrica. FOTO: Divulgação

Por Etiene Ramos

O tratamento da obesidade se divide entre o antes e o depois da semaglutida (Ozempic /Wengovy) e da tirzepatida (Mounjaro), drogas que, apesar do alto custo, trouxeram uma revolução muito maior do que a cirurgia bariátrica.

As mudanças foram consolidadas na Diretriz Brasileira Baseada em Evidências para o Manejo da Obesidade, lançada em 2025 por cinco sociedades médicas. O documento aprovou o uso das novas drogas formuladas nas canetas de emagrecimento que, segundo estudos, reduziram em até 20% mortes por Acidente Vascular Cerebral (AVC) e infarto em pessoas obesas.

Não há mais dúvida que elas são bem aceitas por médicos e pacientes que antes tinham poucas opções em medicamentos e só a bariátrica como opção para conter a obesidade e suas comorbidades associadas.

No Simpósio GastroConecta, realizado na última sexta-feira (27) pelo Instituto Endogastro Academy, no Recife, os especialistas se debruçaram sobre uma dúvída pertinente: é o fim da bariátrica?

Para o doutor Francisco Bandeira, autoridade em endocrinologia, dentro e fora do Brasil, a resposta depende de cada quadro. “O paciente deve ser informado das suas comorbidades e, por causa delas, deve perder peso. De acordo com a gravidade, o médico irá escolher os medicamentos, não pela moda, mas sim os mais adequados para o caso”, afirmou.

Ele também levantou o reconhecimento de que a obesidade não é mais vista como uma condição atrelada ao comportamento do paciente, que possa ser resolvida só com força de vontade. Além de culpa, este olhar trazia a ideia de que a depressão era decorrente da doença principal. “O paciente fica deprimido porque tem obesidade, inflamações, fatores que repercutem na saúde mental”, alertou.

Antes da nova diretriz, a decisão médica era baseada apenas no Índice de Massa Corpórea (IMC), mas com as novas drogas entra em cena a redução de pelo menos 5% do peso.

Ex-aluno do Dr. Bandeira, o endocrinologista Fábio Moura chamou a atenção para o mundo real, o que ocorre no dia a dia dos consultórios. “Os pacientes param de usar as canetas por causa do preço, e voltam a engordar”, resumiu, acrescentando que além do reganho de peso há também recidiva nos parâmetros cardiometabólicos. “Para empatar o jogo é preciso baixar o preço das novas drogas. Elas são um avanço muito grande e, não à toa, em 2023 foram escolhidas como drogas do ano pelo grupo Nature Medicine”, completou.

Mas a cirurgia bariátrica, segundo ele, ainda tem vantagens competitivas em relação aos medicamentos. Entre elas, uma maior preservação da massa magra e uma melhor perda de peso, apesar dos pacientes também apresentarem reganho.

NutriConecta no outro lado

A nutrição ficou literalmente ao lado das discussões sobre obesidade. Na sala vizinha ao GastroConecta, dezenas de nutricionistas se reuniram no simpósio NutriConecta, que trouxe palestras de especialistas em temas mais próximos ao universo feminino como fertilidade e menopausa. Porém, uma das mais concorridas não tinha gênero: Neurobiologia e compulsão alimentar, apresentada pela nutricionista e criadora do conceito de neuronutrição, Danielle Lodetti.

Segundo ela, a compulsão por comida é um dos transtornos psiquiátricos graves, que afeta 1,5 milhão de pessoas nos Estados Unidos. O transtorno ocorre quando o sistema de recompensas dopaminérgico está desequilibrado e provoca crises compulsivas por alimentos calóricos, a fim de obter a satisfação deixada pela dopamina, o neurotransmissor conhecido como hormônio do prazer. “Dietas têm que ser decentes. Se forem muito restritivas inibem a produção de dopamina”, afirmou a nutricionista, explicando um dos motivos da compulsão alimentar.

Mestre em neurociências, ela explica que a falta da dopamina nos neurônios pode levar à adenomia e até ao vício em redes sociais que tem efeitos muito práticos. “Um estudo comprova que atletas que ficam em APPs antes de um jogo, cometem mais erros”.

Numa abordagem da neuronutrição, ela recomenda medicamentos como a bupropiona, que inibe a receptação da dopamina e a mantém fora da fenda sináptica, onde encontra os neurônios, evitando novas crises compulsivas que podem levar à obesidade.

Interdisciplinaridade

De acordo com os organizadores, os eventos levaram atualização profissional qualificada, troca de experiências clínicas, conhecimento de casos e debates das evidências mais recentes que impactam diretamente a prática médica, cirúrgica e nutricional.  Para os participantes, o resultado é mais integração entre gastroenterologistas e nutricionistas, destacando a importância da atuação interdisciplinar no cuidado ao paciente.

“A nutrição clínica vive um avanço importante com a medicina de precisão e com a compreensão dos mecanismos do comportamento alimentar. O simpósio trouxe esse olhar atual, integrando ciência, prática e abordagem individualizada do paciente”, declarou a nutricionista Maria Pimentel, integrante da Comissão Organizadora do NutriConecta.

Já a médica Leliane Alencar, da Comissão do GastroConecta, destacou o foco na aplicabilidade dos conteúdos. “Reunimos especialistas com atuação reconhecida para discutir situações reais da prática clínica, com base em evidências e na construção conjunta de soluções. É um momento de atualização científica e de fortalecimento das conexões entre as especialidades”, afirmou.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*