Por Rogério Gomes de Melo
O consumo de energéticos entre crianças e adolescentes tem aumentado de forma preocupante. Vendidas como solução rápida para o cansaço, a falta de foco e o baixo rendimento, essas bebidas passaram a fazer parte da rotina escolar de muitos jovens. Estão nas mochilas, nos intervalos da escola e até acompanhando longas horas de estudo em casa.
O que muitos pais e responsáveis ainda não percebem é que, por trás das latinhas coloridas e das promessas de “mais energia”, existe um impacto real — e muitas vezes silencioso — sobre a saúde física, emocional e cognitiva de quem ainda está em fase de desenvolvimento.
Cérebro em formação x estímulos artificiais
A infância e a adolescência são períodos decisivos para o amadurecimento do cérebro. É nessa fase que se desenvolvem habilidades essenciais como atenção, memória, controle das emoções e capacidade de tomar decisões. Para que tudo isso aconteça de forma saudável, o corpo precisa do básico bem feito: sono de qualidade, alimentação equilibrada e uma rotina minimamente organizada.
Bebidas energéticas vão na contramão disso. Elas costumam conter grandes quantidades de cafeína, além de açúcar, taurina, guaraná, corantes e outros estimulantes. Mesmo em adultos, esses componentes exigem cautela. Em crianças e adolescentes, os efeitos tendem a ser mais intensos e, muitas vezes, prejudiciais.
Energia rápida, queda brusca e prejuízo no aprendizado
Um efeito comum dos energéticos é a falsa sensação de disposição. Logo após o consumo, a criança ou o adolescente pode parecer mais animado, inquieto ou “ligado nos 220”. Este efeito, porém, dura pouco. Em seguida, vem a queda: cansaço intenso, irritação, dificuldade de concentração e, em alguns casos, dor de cabeça e enjoo.
No ambiente escolar, isso se reflete em dificuldade para acompanhar as aulas, menor capacidade de memorizar conteúdos e aumento da agitação ou da ansiedade. O que parecia ajudar no desempenho acaba, na prática, atrapalhando o aprendizado.
Sono prejudicado, humor instável e comportamento alterado
Outro ponto importante é o impacto no sono. A cafeína pode permanecer ativa no organismo por muitas horas. Quando consumida à tarde ou à noite, ela compromete a qualidade do descanso, mesmo que a criança ou o adolescente consiga dormir.
Dormir mal afeta diretamente o humor, a paciência, o controle emocional e o rendimento escolar no dia seguinte. Muitos pais relatam irritabilidade, explosões emocionais, ansiedade e dificuldade para acordar cedo, sem perceber que esses sinais podem estar ligados ao consumo frequente de bebidas estimulantes.
Efeitos no corpo e riscos cardiovasculares
Embora menos comentado no dia a dia, o efeito dos energéticos sobre o sistema cardiovascular também merece atenção. A combinação de cafeína com outros estimulantes pode provocar aumento da frequência cardíaca, elevação da pressão arterial, palpitações e sensação de falta de ar.
Em jovens com alguma predisposição ou condição não diagnosticada, esses efeitos podem representar riscos ainda maiores. Soma-se a isso o excesso de açúcar presente em muitas dessas bebidas, que contribui para ganho de peso, resistência à insulina e alterações metabólicas precoces.
Por que tantos jovens estão consumindo energéticos?
Não existe uma única resposta. O consumo está ligado a fatores como marketing agressivo, fácil acesso, associação com alto desempenho escolar e esportivo e falta de informação clara para as famílias. Em muitos casos, o energético surge como uma tentativa de compensar noites mal dormidas, excesso de atividades, uso prolongado de telas e uma alimentação pobre em nutrientes.
O problema é que, em vez de resolver a causa do cansaço, o energético apenas mascara o problema — e cobra um preço alto do organismo.
O papel da família e dos profissionais de saúde
Pais, cuidadores, educadores e profissionais de saúde têm um papel fundamental na orientação e na prevenção. Conversar com crianças e adolescentes de forma clara, sem medo e sem exageros, é essencial. Entender e explicar que o cansaço não é preguiça, mas um sinal do corpo ajuda a construir uma relação mais saudável com os próprios limites.
Ajustes simples na rotina de sono, melhorias na alimentação, organização dos horários de estudo e acompanhamento profissional, quando necessário, podem trazer ganhos reais e duradouros para o aprendizado e o bem-estar.
Energia de verdade vem do cuidado diário
Nenhuma bebida substitui uma boa noite de sono, uma alimentação adequada e um ambiente emocionalmente seguro. Crianças e adolescentes em fase escolar precisam de apoio, não de estimulantes artificiais.
Observar sinais, questionar hábitos e buscar orientação profissional são atitudes fundamentais para proteger a saúde e o futuro dos jovens. Afinal, energia de verdade não vem em lata — ela se constrói todos os dias, no cuidado, na rotina e nas escolhas que fazemos.
*Rogério Gomes de Melo é Nutricionista, formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em nutrição clínica e esportiva. Atua em nutrição inclusiva com crianças e adolescentes, idosos e público neurodivergente.


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