Da Redação
A campanha Maio Roxo destaca as Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), grupo que inclui a Doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, condições crônicas caracterizadas por inflamação persistente do trato gastrointestinal. Embora não tenham cura definitiva, a evolução do tratamento mostra que a nutrição exerce papel determinante no controle das crises, na manutenção da remissão e na qualidade de vida dos pacientes.
Nos últimos anos, a ciência passou a compreender melhor a relação entre microbiota intestinal, inflamação sistêmica e alimentação. Hoje, especialistas defendem que a dieta deixou de ser apenas suporte e passou a ser parte ativa da terapia.
Para a nutricionista Maria Pimentel, da Clínica NutriGen, a abordagem nutricional precisa ser individualizada e baseada na fase da doença. “Não existe uma dieta única para todos os pacientes com DII. O plano alimentar precisa considerar se a pessoa está em crise ou em remissão, o local da inflamação, presença de intolerâncias e o estado nutricional”, explica.
Autoimunes e multifatoriais
As DII são enfermidades autoimunes e multifatoriais que envolvem predisposição genética, alterações imunológicas, fatores ambientais e mudanças na microbiota intestinal. Entre os sintomas mais comuns estão diarreia crônica, dor abdominal recorrente, perda de peso, fadiga intensa, sangramento intestinal e deficiências nutricionais.
Em muitos pacientes, a alimentação inadequada pode agravar inflamações e desencadear crises. “A mucosa intestinal de quem tem DII é mais sensível. Certos padrões alimentares aumentam a permeabilidade intestinal e estimulam respostas inflamatórias, o que pode piorar sintomas rapidamente”, destaca Maria Pimentel.
Relação com a alimentação
Estudos mostram que padrões alimentares ricos em ultraprocessados, gorduras saturadas e açúcares simples estão associados ao aumento do risco e da gravidade das DII. Por outro lado, estratégias nutricionais anti-inflamatórias contribuem para reduzir sintomas e prolongar períodos de remissão.
“A alimentação influencia diretamente a microbiota intestinal. Quando favorecemos bactérias benéficas, reduzimos os mediadores inflamatórios e fortalecemos a barreira intestinal”, afirma a nutricionista.
Ela ressalta que a dieta não substitui medicamentos, mas potencializa o tratamento clínico. “Pacientes que aderem ao plano alimentar adequado apresentam menos hospitalizações, menos cirurgias e melhor resposta às terapias”.
Suplementação ganha protagonismo
A suplementação nutricional passou a ocupar lugar estratégico no manejo das DII. Isso porque a inflamação intestinal crônica compromete a absorção de nutrientes e aumenta o risco de desnutrição, sarcopenia e queda da imunidade. “Grande parte dos pacientes apresenta deficiências nutricionais importantes, seja pela má absorção, pelas restrições alimentares ou pelo aumento das necessidades metabólicas durante as crises”, explica Maria Pimentel.
Entre os nutrientes que mais exigem atenção estão ferro, vitamina B12, vitamina D, cálcio, zinco e ácido fólico. Essas carências podem provocar anemia, fraqueza, perda de massa muscular, piora da imunidade e maior risco de complicações clínicas. “A suplementação muitas vezes deixa de ser opcional e passa a ser terapêutica. Corrigir deficiências nutricionais melhora a resposta ao tratamento, reduz internações e favorece a recuperação da mucosa intestinal”, afirma.
A vitamina D, por exemplo, tem papel relevante na modulação do sistema imunológico. “Baixos níveis estão associados a maior atividade inflamatória e maior risco de crises”, alerta a nutricionista.
Já a vitamina B12 merece atenção especial em pacientes com comprometimento do íleo, área comum de inflamação na Doença de Crohn e, segundo ela, sem suplementação adequada, o risco de anemia e fadiga crônica é elevado.
Também costuma ser necessário suplementar o ferro, especialmente em pacientes com sangramento intestinal recorrente. A anemia ferropriva é uma das complicações mais comuns nas DII e impacta diretamente a qualidade de vida.
Probióticos e a microbiota intestinal
Os probióticos e prebióticos são suplementos que ajudam a restaurar o equilíbrio da microbiota intestinal, frequentemente alterada nas DII. “A modulação da microbiota é uma estratégia promissora. Em alguns casos, probióticos específicos auxiliam na manutenção da remissão e na redução de sintomas gastrointestinais”, explica Maria Pimentel.
Ela reforça que a suplementação deve ser sempre individualizada. “Nem todo suplemento é indicado para todos os pacientes. O acompanhamento profissional é essencial para evitar excessos e garantir segurança”.
Impacto emocional e a alimentação
A relação com a comida pode se tornar complexa para quem convive com DII. O medo de desencadear crises leva muitos pacientes a restringirem excessivamente a alimentação. “Muitos desenvolvem ansiedade alimentar. A pessoa passa a temer a comida, o que pode gerar deficiências nutricionais e piorar o estado geral”, afirma Maria Pimentel.
O acompanhamento nutricional ajuda a reconstruir a confiança alimentar e reduzir restrições desnecessárias.
Estratégias nutricionais para conviver com DII:
• Fracionar refeições ao longo do dia para facilitar a digestão
• Manter hidratação constante, especialmente durante crises
• Utilizar diário alimentar para identificar gatilhos individuais
• Priorizar acompanhamento multidisciplinar contínuo, em especial o médico e o nutricionista
• Avaliar regularmente exames laboratoriais
• Corrigir deficiências com suplementação orientada
O Maio Roxo reforça que viver com Doenças Inflamatórias Intestinais exige cuidado contínuo e abordagem multidisciplinar. A nutrição e a suplementação deixaram de ser apenas suporte e passaram a integrar o tratamento de forma estratégica. O nutricionista tem papel fundamental no processo.
“A nutrição é uma ferramenta terapêutica poderosa. Quando o paciente entende seu corpo, corrige deficiências e aprende a se alimentar de forma estratégica, ele ganha autonomia e reduz significativamente o impacto da doença no dia a dia”, conclui Maria Pimentel.

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