TDAH Sem Rótulos – No Recife, neurologistas Rubens Wajnsztejn e Renato Arruda alertam para riscos de banalização do diagnóstico

Time da Cellera Farma promovendo o TDAH Sem Rótulos. FOTO: Divulgação Cellera Farma

 

Por Jademilson Silva

Evento reuniu psiquiatras, neurologistas e neuropediatras para discutir o crescimento dos diagnósticos, a importância da avaliação criteriosa e os desafios do tratamento no Brasil

O aumento dos diagnósticos de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) provoca um debate cada vez mais presente entre especialistas. A visibilidade ampliou o acesso à informação e ao tratamento, mas também levantou questionamentos sobre interpretações superficiais e diagnósticos imprecisos. Esse cenário norteou a mesa-redonda TDAH na Vitrine: Moda ou Diagnóstico, realizado no Recife, no último dia 29, e voltado a médicos e profissionais da saúde.

O encontro, promovido pela Cellera Farma, integra uma série nacional de discussões sobre o transtorno, trouxe os neurologistas Renato Arruda, mestre pela University of Copenhagen e membro do Conselho Científico da ABDA (Associação Brasileira de Déficit de Atenção) e da International Society for Autism Research (INSAR ), e Rubens Wajnsztejn, Doutor em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina do ABC,  Professor Titular de Neurologia Infantil do Departamento de Neurociências da mesma instituição e diretor da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI).

Nas palestras apresentadas a médicos psiquiatras, neurologistas e neuropediatras, de Pernambuco e de outros estados, eles falaram sobre os avanços, desafios e a necessidade de ampliar o debate qualificado sobre o tema com questões Estamos reconhecendo melhor os casos de TDAH ou medicalizando comportamentos ? 

Avanços científicos e crescimento dos diagnósticos

A ampliação do conhecimento científico foi apontada como um dos principais fatores para o aumento do número de diagnósticos. Para o neurologista infantil Rubens Wajnsztejn, a evolução dos critérios diagnósticos e o avanço das pesquisas, especialmente na área genética, permitiram uma identificação mais precisa do transtorno, que só começou a ser estudado com mais ênfase há cerca de 70 anos.

Segundo ele, o TDAH é um distúrbio de origem neurobiológica e genética. Com o progresso da ciência e a maior divulgação de informações, mais pessoas passaram a reconhecer sintomas e buscar avaliação especializada. Esse movimento contribuiu para ampliar o acesso ao tratamento e melhorar o prognóstico dos pacientes.

O especialista ressaltou que a disseminação de conhecimento tem impacto direto na qualidade de vida dos pacientes. Ao compreender que o transtorno pode ser tratado, famílias e adultos passaram a procurar ajuda com maior frequência, o que elevou a percepção pública sobre o tema.

Diagnóstico ainda enfrenta desigualdades no Brasil

Apesar dos avanços, o cenário brasileiro apresenta grandes desafios. Wajnsztejn destacou a dificuldade de acesso a especialistas em diversas regiões do país, o que compromete a qualidade do diagnóstico.

Ele relatou experiências em municípios onde a rede de saúde contava com poucos profissionais, o que dificultava avaliações completas. Essa realidade contribuiu tanto para casos não identificados quanto para diagnósticos realizados sem a profundidade necessária. “Muitas crianças são diagnosticadas erroneamente e, por outro lado, há sub diagnósticos porque grande parte não tem acesso ao diagnóstico”, observou.

O especialista afirmou que a desigualdade na assistência impacta diretamente a identificação do transtorno e reforçou a necessidade de políticas públicas que ampliem o acesso a equipes multidisciplinares.

Para Renato Arruda a avaliação neuropsicológica e a psicometria são muito importantes na identificação do TDAH, mas há muitas variáveis que interagem entre si, de uma maneira muito complexa. “É preciso muito cuidado para não usar uma neuropsicologia como diagnóstico”, declarou.

Tratamento exige abordagem integrada

Renato Arruda, neurologista. FOTO: Divulgação Cellera Farma

Outro ponto enfatizado foi que o tratamento do TDAH não se resume ao uso de medicamentos. Wajnsztejn explicou que a abordagem precisa envolver escola, família, ambiente de trabalho e profissionais de saúde.

A intervenção medicamentosa é importante, mas não funciona de forma isolada. O especialista reforçou que não existe solução única ou imediata. O tratamento exige integração entre diferentes áreas para alcançar resultados consistentes.

Ele destacou que a ideia de uma solução rápida ou de uma pílula capaz de resolver todas as dificuldades não corresponde à realidade clínica. A evolução depende da articulação entre terapias, adaptação do ambiente e orientação adequada. “O TDAH é genético, não há causas. Porém, a aceleração atual pode piorar o transtorno”, afirmou o  Dr. Renato Arruda.

Preconceito e dúvidas sobre medicação

A discussão também abordou o estigma relacionado ao uso de medicamentos. Wajnsztejn explicou que ainda existe resistência quando o tratamento envolve medicação para condições neurobiológicas.

Segundo ele, a ausência de exames laboratoriais capazes de confirmar o transtorno gera dúvidas em parte da população. Diferentemente de outras condições médicas, o TDAH não possui marcador biológico direto, o que dificulta a compreensão pública sobre a necessidade do tratamento.

Essa lacuna contribuiu para a perpetuação de preconceitos e reforçou a importância de informação qualificada para reduzir barreiras ao cuidado.

Autismo e debates sobre classificação diagnóstica

Durante o encontro, o neurologista também abordou discussões atuais sobre o Transtorno do Espectro Autista. Ele explicou que o conceito de espectro foi criado para simplificar a classificação diagnóstica, mas passou a ser questionado por especialistas.

A amplitude do termo pode gerar interpretações equivocadas e agrupar perfis muito distintos sob a mesma nomenclatura. Segundo Wajnsztejn, esse debate ocorre em diversos países e pode resultar em mudanças futuras na forma de classificação.

Ele ressaltou que a discussão envolve impactos sociais, educacionais e terapêuticos, especialmente na distribuição de recursos e no acesso a tratamentos.

Informação como ferramenta de cuidado

Os especialistas concordaram que a informação qualificada é essencial para equilibrar conscientização e precisão diagnóstica. O crescimento do debate público foi considerado positivo, mas exige responsabilidade na divulgação de conteúdos.

A gerente de produtos SNC da Cellera Farma, Erika Inacio, afirmou que a iniciativa buscou estimular uma conversa baseada em evidências científicas e contribuir para decisões mais seguras na prática clínica.

A proposta do encontro foi fortalecer o diálogo entre profissionais e ampliar a compreensão sobre o transtorno, diferenciando informação confiável de interpretações simplificadas.

O que é o TDAH

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que pode afetar crianças, adolescentes e adultos. O diagnóstico é clínico e envolve múltiplos critérios, o que reforça a importância do acompanhamento por profissionais qualificados.

O consenso entre especialistas apontou que a prática clínica baseada em evidências continua sendo o caminho mais seguro para garantir diagnóstico preciso, tratamento adequado e melhor qualidade de vida para os pacientes.

O encontro reforçou a importância de manter o debate científico ativo e qualificado, diante de um tema que segue ganhando espaço na sociedade e exige cada vez mais responsabilidade na forma como é discutido.

 

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*