A alimentação que nutre o cérebro – O segredo para o desenvolvimento cognitivo e o sucesso escolar das crianças

A escola é a parceira dos pais para uma boa educação alimentar - FOTO: AndrzejRembowski

 

Por Rogério Gomes de Melo*

Embora muitas vezes subestimada, a alimentação é um dos pilares para o desenvolvimento pleno de nossas crianças. Não estamos falando apenas de “encher a barriga”, mas sim de fornecer o combustível certo para a máquina mais complexa e fascinante que existe: o cérebro infantil.

Vamos mergulhar neste tema e imaginar que o cérebro de uma criança é como um jardim em constante crescimento. Para florescer, ele precisa de solo fértil, água na medida certa e nutrientes específicos. Da mesma forma, a alimentação correta é o adubo que garante que esse jardim cerebral se desenvolva com todo o seu potencial, impactando diretamente o aprendizado, o comportamento e até a felicidade dos pequenos. E o mais interessante é que essa responsabilidade não recai apenas sobre os pais; alunos, professores e cuidadores têm um papel crucial nesse processo coletivo.

Porque o cérebro infantil é tão dependente da alimentação?

Você sabia que o cérebro de uma criança, especialmente nos primeiros anos de vida, consome uma quantidade impressionante de energia? Ele pode chegar a utilizar até 50% do gasto energético diário! Isso acontece porque ele está em um ritmo acelerado de crescimento e formação de novas conexões. Para que essa “usina” funcione a todo vapor, garantindo memória, foco, bom humor, organização e criatividade, ele depende de um suprimento constante e variado de nutrientes.

Uma criança bem nutrida não apenas aprende mais rápido, mas também desenvolve uma maior capacidade de lidar com frustrações e apresenta uma estabilidade emocional notavelmente superior. É um investimento direto no bem-estar e no futuro delas.

Os super-heróis da nutrição para o aprendizado

Vamos conhecer os principais nutrientes que atuam como verdadeiros super-heróis no desenvolvimento cognitivo:

  • Carboidratos de boa qualidade – Pense em aveia, frutas e raízes. Eles são a fonte de energia constante e gradual que o cérebro precisa para manter o foco e a concentração ao longo do dia, evitando picos e quedas bruscas de glicose.
  • Proteínas – Presentes em ovos, feijões, carnes e leite, as proteínas são essenciais para a formação de neurotransmissores vitais como a dopamina e a serotonina. Esses mensageiros químicos são os grandes reguladores da motivação, do humor e da sensação de bem-estar.
  • Gorduras boas – Abacate, azeite, castanhas e peixes são ricos em gorduras que são cruciais para a formação das membranas das células nervosas e para aprimorar a memória. Elas são a “estrutura” que permite a comunicação eficiente entre os neurônios.
  • Ferro – Encontrado em feijão, carne vermelha e vegetais verde-escuros, o ferro é um mineral poderoso. Sua deficiência pode levar a cansaço extremo, dificuldade de aprendizado e desatenção, impactando diretamente o desempenho escolar.
  • Ômega-3 – Peixes como salmão e sardinha, azeite, chia e linhaça são fontes riquíssimas de ômega-3. Este ácido graxo essencial é um grande aliado na comunicação entre os neurônios e na melhoria da concentração.
  • Água – Sim, a boa e velha água! A hidratação é um fator direto no raciocínio. Uma desidratação de apenas 2% já pode reduzir significativamente o desempenho Mantenha as crianças hidratadas!

O lado B da má alimentação: impactos no dia a dia escolar

Infelizmente, a má alimentação tem um custo alto para o desenvolvimento infantil. Se o cérebro não recebe o que precisa, os sinais aparecem rapidamente no ambiente escolar:

  • Desatenção e lentidão no raciocínio – A dificuldade em acompanhar as aulas e resolver problemas simples.
  • Irritabilidade, ansiedade e dificuldade em lidar com conflitos – O humor fica mais instável, e pequenas frustrações se tornam grandes desafios.
  • Queda no desempenho em testes e avaliações – O esforço não se traduz em resultados, gerando desmotivação.
  • Mais episódios de sono em sala de aula – A falta de energia e nutrientes adequados leva à sonolência.
  • Redução da memória de curto prazo –  Prejudica tarefas básicas como copiar do quadro, seguir regras e interpretar textos.

O papel dos pais e cuidadores: o exemplo que nutre

 Os pais são os grandes arquitetos da rotina alimentar, mas a responsabilidade pode ser compartilhada com a escola e com os próprios alunos.  Se o objetivo é  construir uma base alimentar sólida, é fundamental que todos os envolvidos trabalhem em conjunto. Para isso, é essencial:

  • Organizar rotinas alimentares: Evitar longos períodos sem comer, garantindo refeições e lanches regulares.
  • Preparar lanches escolares nutritivos: Priorizar opções simples, acessíveis e que realmente alimentem.
  • Ensinar pelo exemplo: As crianças aprendem Se os pais comem bem, elas tendem a seguir o mesmo caminho.
  • Ter paciência com novos alimentos: É um processo! Uma criança pode precisar experimentar um alimento 10 ou mais vezes até desenvolver o Persistência e criatividade são chaves.

O papel da escola e dos professores: o ambiente incentiva

A escola é um ambiente de aprendizado e, como tal, tem um papel educativo fundamental na alimentação:

  • Incentivar o consumo de água e alimentos nutritivos – Criar lembretes, disponibilizar bebedouros acessíveis.
  • Criar momentos de educação alimentar – Rodas de conversa, projetos de horta escolar, desafios semanais saudáveis.
  • Observar sinais de má alimentação repetida – E, com sensibilidade, orientar as famílias, oferecendo apoio e informações.
  • Evitar o uso de alimentos ultraprocessados como recompensas – Isso associa esses alimentos a algo positivo, o que não é o ideal.

O papel dos alunos: os protagonistas da própria saúde

Mesmo os pequenos podem ser agentes de mudança em sua própria alimentação:

  • Entender que alimentação não é só “encher a barriga”- É dar energia para brincar, pensar e aprender.
  • Experimentar novos alimentos sem preconceito – Dar uma chance para o novo
  • Levar a sério a hidratação – Beber água regularmente é um hábito que se constrói.
  • Perceber como o corpo funciona melhor quando se alimentam bem – Sentir mais disposição, energia e clareza mental é um motivador natural e poderoso.

Lanches escolares na prática: sugestões fáceis e baratas

Para ajudar na rotina, seguem algumas ideias de lanches nutritivos, práticos e que cabem no bolso:

  • Frutas, cortadas ou inteiras (maçã, banana, pera, uvas).
  • Sanduíche de pão integral – Com queijo, ovo cozido, pasta de atum ou frango desfiado.
  • Iogurte natural – Com um fio de mel ou pedaços de frutas.
  • Castanhas, granola simples ou biscoitos integrais – Em porções adequadas.
  • Água – Sempre a melhor opção. Evite sucos artificiais e refrigerantes, que são ricos em açúcar e aditivos.

Construindo uma Cultura Alimentar Positiva

Mais do que regras, precisamos criar um ambiente que promova escolhas saudáveis de forma natural e prazerosa:

  • Tornar o ambiente agradável – As refeições devem ser momentos de conexão, sem brigas ou pressões.
  • Envolver a criança na compra e preparo dos alimentos – Isso aumenta o interesse e a aceitação.
  • Estabelecer horários – A rotina dá segurança para o cérebro e ajuda a regular o apetite.
  • Valorizar pequenas vitórias – “Você experimentou algo novo hoje!” – pequenos elogios incentivam grandes mudanças.

Um investimento no futuro

Comer bem não é sobre perfeição, mas sobre constância e escolhas conscientes. A alimentação adequada é, sem dúvida, um dos pilares mais importantes para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social de nossas crianças.

Quando famílias, escolas e a própria criança trabalham juntas, o impacto é imenso e duradouro. O resultado? Crianças mais equilibradas, mais felizes, com mais energia para brincar, aprender e explorar o mundo. É um investimento no presente que colherá frutos por toda a vida.

E você, como tem incentivado a alimentação saudável em casa ou na escola? Compartilhe suas experiências nos comentários!

 

*Rogério Gomes de Melo é Nutricionista, formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em nutrição clínica e esportiva.

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