Por Rogério Gomes de Melo
Há poucas gerações, a base da alimentação cotidiana era simples e reconhecível: arroz, feijão, legumes, frutas, carnes frescas e preparações feitas em casa. Não se falava em “comida natural” porque praticamente toda comida era natural. Comer era parte da vida doméstica, e cozinhar era uma habilidade transmitida entre gerações.
Hoje, o cenário é radicalmente diferente. Crianças sabem identificar marcas de biscoitos e fast food antes mesmo de reconhecer muitos alimentos in natura. Adultos frequentemente relatam não ter tempo — ou às vezes nem saber — como preparar uma refeição simples. O que antes era cotidiano se tornou exceção.
Como nutricionista, é impossível observar esse processo sem reconhecer que não se trata apenas de escolhas individuais. A substituição da comida de verdade por fast food e ultraprocessados foi construída ao longo de décadas por mudanças sociais profundas — e também por decisões coletivas que moldaram a forma como vivemos.
Estamos diante de uma transformação alimentar que aconteceu rápido demais para que percebêssemos o que estávamos perdendo.
A cozinha que desapareceu
Durante muito tempo, a alimentação doméstica girava em torno da cozinha. As refeições eram organizadas com base no que se comprava em feiras, mercados locais ou pequenos comércios. Havia planejamento, preparo e tempo dedicado à comida.
Não era um sistema perfeito. Preparar refeições diariamente exigia esforço constante. Mas existia algo que hoje faz falta: o vínculo cotidiano com o alimento.
As pessoas sabiam de onde vinha a comida, como ela era preparada e o que compunha um prato equilibrado — não por teoria, mas por convivência.
Esse conhecimento foi sendo interrompido. Hoje encontramos famílias inteiras que praticamente não cozinham, não por desinteresse, mas porque a rotina passou a ser organizada de outra forma.
A conveniência que custou caro
A expansão dos ultraprocessados foi apresentada como uma solução moderna para um problema real: a falta de tempo.
Refeições congeladas, macarrões instantâneos, biscoitos recheados, bebidas açucaradas e pratos prontos foram vendidos como aliados da vida moderna. E, de fato, trouxeram praticidade.
Mas houve um preço silencioso.
Aos poucos, deixamos de cozinhar. Depois, deixamos de aprender a cozinhar. E agora estamos chegando a uma geração que muitas vezes não reconhece a comida fora da embalagem.
A indústria alimentícia não apenas respondeu a uma demanda — ela ajudou a criar um novo padrão alimentar. Produtos foram formulados para serem irresistíveis, duráveis e sempre disponíveis. O objetivo não era alimentar melhor, mas vender mais.
Hoje vivemos cercados por alimentos que não exigem preparo, planejamento nem espera. Basta abrir, aquecer ou pedir por aplicativo.
Nunca foi tão fácil comer — e paradoxalmente nunca foi tão difícil comer bem.
A desigualdade dentro de casa
Existe outro aspecto dessa história que raramente aparece quando se fala em alimentação: a desigualdade na divisão do trabalho doméstico.
Durante décadas, a alimentação familiar dependeu quase exclusivamente do trabalho das mulheres. Cozinhar diariamente era considerado uma obrigação natural, não um esforço que exigia tempo e energia.
Quando as mulheres passaram a trabalhar fora — uma conquista fundamental — a responsabilidade pela alimentação nem sempre foi redistribuída. Em muitas casas, a rotina doméstica continuou sendo atribuída a elas, agora acumulada com o trabalho remunerado.
Os alimentos prontos e ultraprocessados passaram então a ocupar um espaço que a sociedade não soube reorganizar. Eles funcionaram como uma solução prática para uma rotina sobrecarregada.
Mas essa solução teve consequências.
Substituímos tempo por conveniência. Substituímos preparo por embalagem. Substituímos comida por produto.
E fizemos isso sem perceber que o problema nunca foi cozinhar — foi cozinhar sozinho.
A cultura do imediatismo alimentar
Outra mudança importante foi a perda da espera. A comida natural exige tempo: lavar, cortar, cozinhar, servir. Os ultraprocessados eliminaram essa etapa.
Hoje a lógica alimentar acompanha a lógica do consumo: rapidez, facilidade e disponibilidade permanente.
Comemos no carro, diante do celular, entre uma tarefa e outra. Muitas refeições deixaram de ser momentos de pausa para se tornarem apenas interrupções breves na rotina.
Essa mudança não afeta apenas o valor nutricional da dieta. Ela altera a relação emocional com a comida e reduz o espaço de convivência familiar.
A alimentação deixou de ser experiência para se tornar abastecimento.
O impacto que já estamos vendo
Os efeitos dessa transformação são visíveis nos consultórios.
Cresce o número de crianças que rejeitam alimentos naturais, adolescentes que se alimentam quase exclusivamente de produtos industrializados e adultos que dependem de refeições prontas para conseguir atravessar a semana.
Não é raro encontrar pessoas que dizem: “Eu queria melhorar minha alimentação, mas não sei por onde começar.”
Essa frase resume bem o momento atual. Perdemos não apenas hábitos — perdemos referências.
A dificuldade alimentar que hoje parece individual é, na verdade, coletiva.
O caminho não é voltar ao passado
Não é realista imaginar um retorno a um modelo em que uma pessoa — quase sempre uma mulher — assumia sozinha a responsabilidade pela alimentação da família.
O caminho não está no passado. Está na reconstrução de uma nova cultura alimentar.
Cozinhar precisa deixar de ser obrigação de alguém e passar a ser responsabilidade de todos. Crianças precisam voltar a ter contato com alimentos reais. Adultos precisam recuperar habilidades básicas que foram sendo abandonadas.
Não se trata de eliminar completamente os alimentos industrializados, mas de recolocar a comida de verdade no centro da alimentação.
Na minha prática diária como nutricionista, fica cada vez mais evidente que orientar indivíduos não é suficiente se o ambiente alimentar continua empurrando na direção oposta.
A mudança necessária é cultural.
E talvez o primeiro passo seja reconhecer algo simples e ao mesmo tempo incômodo: não foi por acaso que deixamos de comer comida de verdade. Foi porque, aos poucos, organizamos a vida de um jeito que deixou cada vez menos espaço para ela.

*Rogério Gomes de Melo é Nutricionista, formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em nutrição clínica e esportiva. Foco de atuação em nutrição inclusiva com crianças e adolescentes, idosos e público neurodivergente.

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