ARTIGO – Para o autista, comer nem sempre é só comer: os desafios sob o olhar da nutrição

A joyful mother and son team up in the kitchen, enjoying a fun cooking session together.
Photo by Jonathan Borba on Pexels

 

Por Rogério Gomes de Melo, nutricionista*

Na prática clínica, a alimentação de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) raramente cabe em uma explicação única. Há quem coma pouco, quem coma muito, quem aceite poucos alimentos e quem varie dentro de um repertório estreito. À primeira vista, pode parecer apenas preferência. Em consulta, os detalhes contam outra história.

Um dos pontos que mais chama atenção é a forma como o alimento é percebido. Textura, cheiro, temperatura e aparência não são apenas características secundárias. Em muitos casos, são o fator decisivo. Um mesmo alimento pode ser aceito em uma apresentação e recusado em outra. Purês, misturas e preparações com múltiplos elementos tendem a gerar mais resistência. A previsibilidade pesa mais do que o valor nutricional.

Esse padrão ajuda a entender por que produtos ultraprocessados aparecem com frequência no repertório. Eles oferecem constância. A cada embalagem, o sabor e a textura se repetem. Para uma criança sensível a variações, isso reduz incertezas. O efeito colateral é uma dieta que pode até sustentar o peso, mas deixa lacunas importantes em micronutrientes.

Nem sempre essas lacunas são evidentes no início. Crescimento adequado pode coexistir com ingestão limitada de ferro, zinco, cálcio ou fibras. Em alguns casos, alterações laboratoriais demoram a aparecer. Em outros, surgem sinais indiretos, como constipação, cansaço ou maior suscetibilidade a infecções. A leitura nutricional exige tempo e acompanhamento.

Há também situações em que a dificuldade não está apenas na aceitação, mas no ritmo e na organização da refeição. Algumas crianças têm baixa percepção de fome e saciedade. Outras se distraem facilmente ou perdem o interesse antes de completar a refeição. O resultado pode ser uma ingestão irregular ao longo do dia, o que complica tanto o planejamento alimentar quanto a avaliação do consumo real.

Outro ponto delicado envolve restrições alimentares adotadas fora de indicação clínica clara. Dietas que excluem glúten ou caseína ganharam visibilidade nos últimos anos. A literatura não sustenta uma recomendação universal, e os resultados variam bastante entre os estudos. Em um cenário já marcado por seletividade, retirar grupos alimentares sem avaliação criteriosa pode reduzir ainda mais a diversidade da dieta.

A abordagem nutricional, nesse contexto, tende a ser menos direta do que em outros quadros. Introduzir novos alimentos não costuma funcionar como uma simples troca. A aceitação pode começar antes da ingestão, com exposição visual, contato tátil ou mudanças graduais na apresentação. Em alguns atendimentos, adaptar a textura de um alimento já aceito abre caminho para variações futuras. Em outros, a organização do ambiente — tempo, local, estímulos — faz mais diferença do que o alimento em si.

A participação da criança no preparo, quando possível, também aparece como estratégia útil. Não resolve todos os casos, nem sempre é viável, mas pode reduzir estranhamento em algumas situações. O ponto central é que a intervenção precisa dialogar com a forma como aquela criança específica percebe e responde aos alimentos.

Quando há impacto nutricional mais evidente ou dificuldades sensoriais marcantes, o trabalho em equipe se torna relevante. Nutrição, terapia ocupacional e outras áreas podem atuar de forma complementar. Não se trata de somar abordagens de maneira genérica, mas de alinhar objetivos e estratégias.

Ainda que os desafios sejam consistentes, o percurso não é fixo. Algumas crianças ampliam o repertório ao longo do tempo, outras mantêm padrões mais restritos. A condução nutricional não busca apenas diversificar a dieta a qualquer custo, mas garantir que, dentro das limitações existentes, haja segurança nutricional e menor tensão nas refeições.

 

Referências bibliográficas

  • Bandini LG, Anderson SE, Curtin C, et al. Food selectivity in children with autism spectrum disorders and typically developing children. The Journal of Pediatrics. 2010;157(2):259–264.
  • Cermak SA, Curtin C, Bandini LG. Food selectivity and sensory sensitivity in children with autism spectrum disorders. Journal of the American Dietetic Association. 2010;110(2):238–246.
  • Sharp WG, Berry RC, McCracken C, et al. Feeding problems and nutrient intake in children with autism spectrum disorders: a meta-analysis and comprehensive review. Journal of Autism and Developmental Disorders. 2013;43(9):2159–2173.
  • Hyman SL, Stewart PA, Schmidt B, et al. Nutrient intake from food in children with autism. Pediatrics. 2012;130(Supplement 2):S145–S153.
  • Emond A, Emmett P, Steer C, Golding J. Feeding symptoms, dietary patterns, and growth in young children with autism spectrum disorders. Pediatrics. 2010;126(2):e337–e344.
  • Ledford JR, Gast DL. Feeding problems in children with autism spectrum disorders: a review. Focus on Autism and Other Developmental Disabilities. 2006;21(3):153–166.

 

*Rogério Gomes de Melo é Nutricionista, formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em nutrição clínica e esportiva. Foco de atuação em nutrição inclusiva com crianças e adolescentes, idosos e público neurodivergente.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*