Um a cada três brasileiros, em média, vivem com obesidade, proporção que deve crescer nos próximos cinco anos, segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2024, da World Obesity Federation. Ao mesmo tempo, a dor crônica atinge entre 30% e 40% da população adulta, conforme a Sociedade Brasileira de Estudos da Dor (SBED), e está entre as principais causas de aposentadoria precoce no país.
No Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 4 de março, o alerta recai sobre a associação entre essas duas condições. Para o neurocirurgião Julio Lustosa, é fato que o excesso de peso contribui para a manutenção de quadros persistentes de dor. “A obesidade e a dor crônica são condições interligadas que requerem uma abordagem abrangente para tratamento. Pacientes que têm obesidade, principalmente, obesidade mórbida, têm mais dor, segundo as estatísticas, do que pacientes não obesos”, declara.
Segundo ele, isso acontece porque o excesso de peso acarreta sobrecarga das articulações e degeneração precoce e intensa, o que leva a quadros dolorosos crônicos. “Normalmente, essa parcela da população se movimenta menos, tendo maior atrofia da musculatura e, com isso, mais dor”.
Especialista no tratamento da dor crônica, Lustosa acrescenta que doenças metabólicas também ampliam o problema. “Doenças como o diabetes, frequentes em pessoas obesas, costumam apresentar várias complicações dolorosas.”
Quando a dor muda a rotina
Dor crônica é aquela que se prolonga por meses ou anos. Diferentemente da dor aguda, ela tende a se instalar de forma progressiva. “A dor crônica não necessariamente se instala súbita e intensamente, geralmente, ela vem aos poucos de forma lenta e sorrateira e modifica a vida da pessoa trazendo limitações. Quando a pessoa percebe, ela se torna o personagem central da vida. Com menos mobilidade, a prática de exercícios se torna mais difícil, o que afeta o controle do peso e perpetua a sobrecarga articular”, aponta o neurocirurgião.
Tratar para quebrar o ciclo
Condicionar o alívio da dor à perda de peso pode prolongar o sofrimento. “Perder peso ajuda e muito a aliviar o quadro de dor crônica, mas não podemos esperar o paciente perder peso para começar a tratar”, afirma o médico, ressaltando que a estratégia pode envolver diferentes medicamentos e intervenções minimamente invasivas.
“O tratamento consiste em polifarmácia analgésica, várias medicações com mecanismos diferentes atuando na dor, e, muitas vezes, procedimentos minimamente invasivos como infiltrações e bloqueios, que podem diminuir a dor do paciente, possibilitando a reabilitação por meio do movimento e a perda de peso de uma forma mais confortável”, destaca Julio Lustosa.
Entre a nutrição e a saúde mental
A nutrição é parte essencial do cuidado e, de acordo com o nutricionista Rogério Gomes de Melo, ela vai muito além da contagem de calorias. “Quando falamos em obesidade e dor crônica, estamos falando de um corpo que muitas vezes vive em estado inflamatório constante, com alterações metabólicas que impactam articulações, músculos e até a forma como o sistema nervoso percebe a dor”, explica.
Neste cenário, segundo ele, uma alimentação equilibrada, rica em alimentos in natura, com boa oferta de fibras, proteínas adequadas e gorduras de qualidade, pode contribuir para reduzir inflamação, melhorar o controle glicêmico, preservar massa muscular e favorecer mais disposição no dia a dia. “Isso significa criar condições reais para que essa pessoa consiga se movimentar com menos sofrimento e retomar gradualmente a autonomia”, afirma o nutricionista, lembrando que é preciso reconhecer que ninguém come só por fome.
“A dor persistente desgasta, limita e muitas vezes leva a uma relação emocional com a comida. Por isso, vejo a psicoterapia como grande aliada: ela ajuda a reorganizar essa relação com o corpo, com a dor e com a comida, fortalecendo autonomia e autoestima. Quando nutrição e psicoterapia caminham juntas, o tratamento deixa de ser centrado apenas no sintoma e passa a acolher a pessoa como um todo”, completa.
Neuromodulação e reeducação da dor
Em casos selecionados, a neuromodulação pode integrar o tratamento. “Na dor crônica, o problema muitas vezes é a forma como o sistema nervoso passou a processar e perpetuar o sinal doloroso. O cérebro aprende a dor por meio da neuroplasticidade. A chamada reeducação cerebral utiliza estratégias que modulam esses circuitos”, destaca.
Segundo o especialista, a neuromodulação atua justamente nesse mecanismo. “A neuromodulação é uma tecnologia capaz de enviar estímulos controlados ao sistema nervoso para reorganizar circuitos que estão funcionando de forma desajustada.”
Para o neurocirurgião, o objetivo final do tratamento vai além do controle do sintoma. “Tratar a dor é recondicionar a vida do paciente. Não se trata apenas de prescrever medicação ou realizar procedimentos, mas de devolver funcionalidade e permitir que ele retome sua rotina com autonomia. O tratamento da dor deve estar associado à perda de peso, à prática orientada de atividade física e a ajustes na alimentação, medidas que contribuem para reduzir processos inflamatórios e consequentemente, auxiliam na perda de peso e no tratamento da obesidade”, destaca Lustosa.

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