Sociedade de Pediatria de Pernambuco faz alerta sobre uso de canetas emagrecedoras em crianças

A médica Jacqueline Araújo participa da Coluna Saúde e Bem-estar do Blog Polo Médico - Foto: Canva

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Popularização das canetas emagrecedoras aumenta preocupação com o uso indiscriminado entre crianças e adolescentes, que pode trazer riscos à saúde quando não há indicação e acompanhamento médico


Os medicamentos popularmente conhecidos como “canetas para emagrecer” ganharam grande visibilidade nos últimos anos. Nas redes sociais, são frequentemente apresentados como uma forma rápida e eficaz de perder peso. No entanto, essa popularização também tem levado à banalização de seuuso, inclusive entre crianças e adolescentes. Utilizar esses medicamentos semi ndicação médica, com o objetivo exclusivo de emagrecer rapidamente ou de alcançar um determinado padrão estético, pode representar riscos importantes para a saúde, como atesta a médica endocrinologistapediatra Jacqueline Araújo, coordenadora do departamento de endocrinologia pediátrica da Sociedade de Pediatria de Pernambuco (Sopepe).

A preocupação é ainda maior quando os produtos são adquiridos sem garantia de procedência, inclusive fora dos canais oficiais de comercialização. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) tem alertado para os riscos da automedicação e do uso inadequado desses medicamentos na faixaetária pediátrica. Embora alguns fármacos tenham indicação aprovada para situações específicas em crianças e adolescentes, principalmente no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, sua prescrição deve ser individualizada e cuidadosamente avaliada.

Crianças e adolescentes ainda estão crescendo
Ainfância e aadolescência são períodos de intenso crescimento e desenvolvimento. Por isso, o tratamento medicamentoso exige cuidados especiais. “Medicamentos que reduzem significativamente o apetite podem levar a uma diminuição importante da ingestão de alimentos. Quando utilizados de forma inadequada ou sem acompanhamento profissional, podem comprometer a oferta de energia e nutrientes necessários para o crescimento e o desenvolvimento saudável”, afirma a médica. Entre os possíveis problemas estão desidratação, alterações eletrolíticas e perda de massa magra, incluindo massa muscular.

“É importantel embrar que perder peso não significa, necessariamente, perder apenas gordura. Dependendo da forma comoocorre a redução de peso, também pode haver perda de massa muscular, um aspecto particularmente relevante durante a infância e a adolescência, fases importantes para o desenvolvimento do organismo”, explica.

Esses medicamentos também podem causar efeitos gastrointestinais, como náuseas, vômitos, refluxo, diarreia e constipação. Outros efeitosa dversos, potencialmente mais graves, embora menos frequentes, também devem ser considerados.

Pressão estética e saúde emocional
Outro ponto de preocupação é o impacto da pressão estética sobre crianças e adolescentes. A exposição contínua nas redes sociais a padrões irreais de beleza e magreza pode aumentar a insatisfação com o próprio corpo. Nesse contexto, o uso de medicamentos para modificar rapidamente a aparência pode favorecer uma relação inadequada com a alimentação e com a imagem corporal. Para alguns jovens, a busca pelo emagrecimento a qualquer custo pode contribuir para comportamentos alimentares de risco e estar associada ao desenvolvimento ou agravamento de transtornos alimentares, além de ansiedade, sintomasdepressivos e sofrimento emocionalr elacionado à percepção do próprio corpo. Por isso, a buscapor um padrão estético não deve ser, por si só, motivo para o uso de medicamentos para perda de peso.  “O objetivo do tratamento da obesidade em crianças e adolescentesdeve ser melhorar a saúde, prevenir ou tratar complicações e promover qualida de de vida, e não simplesmente alcançar um número na balança ou um padrão corporal”, reforça.

Avaliação médica é indispensável
Antes de iniciar qualquer tratamento medicamentoso para obesidade, a criançaou o adolescente precisa passarporumaavaliaçãomédicacuidadosa, inicialmente do pediatra e se necessário do endocrinol gista pediatra.  A decisão sobre o uso de medicamentos deve considerar diversos fatores, comoidade, crescimento e desenvolvimento, estágio puberal, gravidade da obesidade, presença de doençasassociadas e tratamentosrealizadosanteriormente.

A avaliação também deve incluir hábitos alimentares, nível de atividadefísica, qualidade do sono, saúde emocional e a relação do jovem com o próprio corpo. Quando há indicação, o medicamento não deve ser visto como uma solução isolada. Ele fazparte de uma estratégia mais ampla de cuidado, que pode envolver mudanças sustentáveis na alimentação, estímulo à atividadefísica, sono adequado, atenção à saúde emocional e acompanhamento periódico. Também é fundamental conhecer aorigem do medicamento. Produtos sem registro sanitário ou adquiridos de fontes cuja composição e procedência não podem ser garantidas representam um risco adicional à saúde.

O problemanão é o medicamento, mas o uso inadequado
É importante evitar um equívoco: alertar para os riscos não significa condenar o tratamento medicamentoso da obesidade. A obesidade é uma doença crônica e complexa e, em situações específicas, medicamentos podem ser importantes e seguros quando utilizados na faixa etária adequada, com indicação correta e acompanhamento médico. O problema está na banalização do uso, na automedicação e na utilização desses medicamentos exclusivamente para fins estéticos.

Crianças e adolescentes não devem ser expostos à ideia de que existe uma “solução rápida” para emagrecer. O cuidado com a saúde precisa espeitar cada fase do desenvolvimento e considerar a pessoa de forma integral. Em saúde, especialmente durante a infância e a adolescência, não existe espaço para modismos. Toda decisão terapêutica deve ser baseada em evidências, indicação adequada e acompanhamento profissional.


Coluna Saúde e Bem-estar: informação que faz bem 

Por jornalista Jademilson Silva

Matéria originalmente publicada em: www.folhape.com.br


 

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