Mergulho no mar pode causar trauma grave na coluna cervical, alerta ortopedista

O médico Luiz Hirata Filho participa da Coluna Saúde e Bem-estar do Blog Polo Médico

||Coluna Saúde e Bem-estar||


O médico ortopedista e traumatologista Luiz Hirata Filho diz que o impacto de uma onda, associado à desaceleração brusca da cabeça contra o fundo do mar, pode provocar um trauma de alta energia na coluna cervical, com risco de fraturas, deslocamentos e até comprometimento da medula espinhal


Um acidente ocorrido durante um banho de mar na Praia de Maracaípe, em Ipojuca, no Litoral Sul de Pernambuco, chamou a atenção para um perigo muitas vezes subestimado por quem frequenta o litoral: o risco de lesões graves na coluna cervical provocadas pelo impacto de uma onda. No dia 10 de agosto, o turista Filipe de Freitas, de 41 anos, morador de Águas Claras, no Distrito Federal, foi atingido por uma onda e sofreu um forte impacto na região cervical. Após o acidente, perdeu os movimentos do corpo e foi encaminhado para atendimento médico.

Exames identificaram um traumatismo raquimedular cervical, com comprometimento dos movimentos dos braços e das pernas. O paciente passou por uma cirurgia de artrodese cervical nas vértebras C4 e C5, realizada no dia 14 de agosto. Ele recebeu alta no dia 17, mas precisou permanecer em Pernambuco para acompanhamento e continuidade do tratamento. Atualmente, Filipe consegue movimentar o braço esquerdo, embora ainda apresente limitações nos movimentos finos. O lado direito foi mais afetado. Ele consegue movimentar o braço, mas sem controle adequado, enquanto a perna direita permanece sem movimento. As duas pernas continuam sem movimentação. A orientação inicial é de pelo menos 45 dias de fisioterapia intensiva, além do uso de colar cervical durante seis semanas. Uma nova avaliação médica deverá definir os próximos passos do tratamento.

Para o médico Luiz Hirata Filho, o caso demonstra que acidentes no mar não devem ser encarados apenas como situações de afogamento. Dependendo da forma como o corpo é atingido pela onda e da posição da cabeça no momento do impacto, pode ocorrer uma lesão cervical de grande gravidade.

O médico Luiz Hirata Filho – Foto: Divulgação

Onda pode provocar trauma de alta energia

Não é possível estabelecer uma equivalência direta entre a força de uma onda e a de uma colisão de trânsito. Os mecanismos são diferentes, mas ambos podem produzir forças importantes sobre a coluna. Segundo o ortopedista, o risco aumenta principalmente quando a onda projeta a pessoa contra o fundo do mar, provocando uma desaceleração repentina.

“Não dá para fazer uma equivalência direta entre uma onda e uma colisão de trânsito, porque os mecanismos são diferentes. O perigo está na força da onda somada à desaceleração brusca quando a cabeça ou o pescoço atingem o fundo. Dependendo da posição, a coluna pode sofrer compressão, flexão, extensão e rotação ao mesmo tempo, produzindo um trauma de alta energia”, explica Luiz Hirata Filho.

Esse tipo de acidente pode ocorrer mesmo em situações nas quais o banhista acredita estar em uma área segura. A presença de bancos de areia e a variação da profundidade podem aumentar o risco, principalmente quando a pessoa é surpreendida por uma onda e perde o controle da posição corporal.

O que acontece com a coluna quando a cabeça bate no fundo

Quando uma pessoa é lançada de cabeça contra o fundo do mar, a energia do impacto é transmitida diretamente para a coluna cervical. A região é formada por sete vértebras, responsáveis por sustentar a cabeça e proteger a porção cervical da medula espinhal.

O chamado “efeito caixote”, expressão usada para descrever o movimento em que a pessoa é projetada de cabeça contra o fundo, pode provocar diferentes tipos de lesões.

“Quando a cabeça atinge o fundo primeiro, a força é transmitida para a coluna cervical. Podem ocorrer fraturas, deslocamentos entre as vértebras, lesões ligamentares e comprometimento dos discos. O quadro se torna mais grave quando há compressão ou contusão da medula, que pode provocar perda importante de movimentos mesmo sem haver uma ruptura completa”, afirma o especialista.

A lesão da medula é uma das principais preocupações nesses casos. Dependendo da região atingida e da intensidade do trauma, o paciente pode apresentar alterações motoras e sensitivas, que podem variar de uma limitação parcial até uma perda significativa dos movimentos.

Surfistas também não estão livres do risco

A experiência no mar pode ajudar na identificação de situações perigosas, mas não elimina a possibilidade de um trauma cervical. Surfistas costumam conhecer melhor o comportamento das ondas e podem ter maior capacidade de reação, mas acidentes também podem ocorrer com praticantes experientes. Já o banhista comum pode ser surpreendido por uma onda em um trecho aparentemente tranquilo.

“A experiência pode ajudar o surfista a reconhecer riscos e reagir melhor, mas não elimina a possibilidade de uma lesão cervical grave. Já o banhista muitas vezes é surpreendido em uma área rasa que considera segura. Nos dois casos, o que pesa muito é a força do impacto e a posição da cabeça e do pescoço no momento do acidente”, destaca Luiz Hirata Filho.

Por isso, a atenção não deve estar concentrada apenas em ondas consideradas grandes. A combinação entre força da água, profundidade, posição do corpo e características do fundo pode determinar a gravidade do acidente.

Dor, formigamento e fraqueza são sinais de alerta

Depois de um impacto no mar, alguns sintomas exigem atenção imediata. Mesmo quando a pessoa permanece consciente e consegue conversar, alterações neurológicas podem indicar uma lesão importante na coluna. Entre os sinais de alerta estão dor forte no pescoço, formigamento, dormência, sensação de choque ou queimação nos braços ou pernas, fraqueza, dificuldade para caminhar e perda de coordenação.

“Dor forte no pescoço, formigamento, dormência, sensação de choque ou queimação nos braços ou pernas, fraqueza, dificuldade para caminhar e perda de coordenação são sinais de alerta. Em lesões mais altas, pode haver também dificuldade para respirar. Depois de um trauma importante, qualquer sintoma neurológico deve ser tratado com muita atenção”, alerta o médico.

A presença de sintomas neurológicos depois de um impacto deve ser considerada uma situação de emergência. A vítima precisa ser avaliada por uma equipe de saúde e, até que isso aconteça, deve-se evitar movimentações desnecessárias.

O erro de tentar levantar a vítima

Um dos principais riscos após um acidente dessa natureza é a tentativa de ajudar a vítima de maneira inadequada. Puxar pelos braços, colocar a pessoa sentada ou tentar fazê-la ficar em pé pode movimentar uma coluna que eventualmente esteja fraturada ou instável.

“O erro mais comum é puxar a pessoa pelos braços, tentar colocá-la sentada ou em pé ou movimentar o pescoço para ver se ela está bem. Se houver uma fratura ou instabilidade cervical, isso pode agravar a lesão. Se houver risco de afogamento, claro, a vida vem primeiro. Fora disso, o ideal é movimentar o mínimo possível e aguardar pessoas treinadas”, orienta Hirata Filho.

A situação exige equilíbrio entre duas emergências. Se a vítima estiver em risco de afogamento, a retirada da água é prioritária. Depois que o risco imediato for controlado, a orientação é evitar movimentações desnecessárias até a chegada de profissionais capacitados.

Se a pessoa não sente braços ou pernas, o que fazer?

Uma vítima consciente que relata perda de sensibilidade ou movimento nos braços ou nas pernas deve ser tratada como um caso de possível lesão grave da coluna.

Nessa situação, a recomendação é acionar imediatamente os salva-vidas e o serviço de emergência. A cabeça e o pescoço devem permanecer o mais alinhados e imóveis possível, sem tentativas de reposicionamento.

“Devemos considerar a possibilidade de uma lesão grave da coluna. É preciso chamar imediatamente os salva-vidas e o serviço de emergência. A cabeça e o pescoço devem ser mantidos o mais alinhados e imóveis possível, sem tentar corrigir a posição ou colocar um colar improvisado. Se não houver risco imediato de afogamento, o mais seguro é aguardar a equipe de resgate”, explica o ortopedista.

A recomendação é especialmente importante porque a vítima pode apresentar uma lesão instável que ainda não foi diagnosticada. Movimentos desnecessários podem agravar o comprometimento neurológico.

Existe possibilidade de recuperação?

A evolução de um trauma da medula espinhal varia de acordo com as características de cada caso. Não existe uma resposta única para todos os pacientes.

O nível da lesão, a intensidade do comprometimento da medula e a quantidade de função neurológica preservada são alguns dos fatores considerados pelos médicos na avaliação do prognóstico.

“Isso varia muito de um paciente para outro. O prognóstico depende do nível da lesão, da intensidade do comprometimento da medula e de quanto da função neurológica foi preservada. Lesões incompletas, nas quais ainda existe alguma sensibilidade ou movimento, costumam ter uma possibilidade maior de recuperação. Nas lesões completas, o prognóstico é mais reservado”, explica Luiz Hirata Filho.

Por isso, a recuperação não deve ser avaliada apenas nos primeiros dias depois do acidente. O acompanhamento médico e a reabilitação são fundamentais para avaliar a evolução das funções motoras e neurológicas ao longo do tempo.

No caso de Filipe, a indicação inicial de fisioterapia intensiva busca trabalhar as funções preservadas e acompanhar a evolução do quadro. A nova avaliação médica deverá determinar as próximas etapas do tratamento.

Musculação protege contra esse tipo de acidente?

O fortalecimento dos músculos do pescoço e dos ombros pode melhorar a força e a estabilidade da região, especialmente em pessoas que praticam esportes. No entanto, não representa uma proteção absoluta contra traumas provocados por impactos de alta energia.

“Uma musculatura bem condicionada contribui para força e estabilidade do pescoço, principalmente em quem pratica esportes. Mas isso não significa que um pescoço fortalecido proteja contra um trauma de alta energia”, afirma o especialista.

Para quem frequenta praias, pratica surfe ou realiza atividades aquáticas, a prevenção continua sendo a principal estratégia para reduzir o risco.

“Para acidentes no mar, a principal proteção continua sendo a prevenção: respeitar os salva-vidas, observar as ondas, evitar mergulhos em águas rasas e não subestimar bancos de areia ou locais desconhecidos”, completa Luiz Hirata Filho.

O acidente em Maracaípe reforça que o mar exige atenção mesmo durante atividades aparentemente simples, como um banho de mar. Conhecer as condições do local, respeitar as orientações dos profissionais que atuam na praia e evitar mergulhos em áreas rasas são atitudes que podem reduzir o risco de acidentes graves.

Quando um acidente acontece, reconhecer rapidamente os sinais de uma possível lesão cervical e evitar movimentos inadequados pode ser determinante para impedir que uma lesão inicial se agrave.

Trauma cervical no mar: saiba como agir

Sinais de alerta após um impacto

  • Dor forte no pescoço
    • Formigamento ou dormência nos braços ou pernas
    • Sensação de choque ou queimação
    • Fraqueza muscular
    • Dificuldade para caminhar
    • Perda de coordenação
    • Perda parcial ou total dos movimentos
    • Dificuldade para respirar, especialmente em lesões cervicais mais altas

O que fazer

  • Acione imediatamente os salva-vidas e o serviço de emergência.
    • Evite movimentar a vítima sem necessidade.
    • Mantenha cabeça e pescoço o mais alinhados e imóveis possível.
    • Aguarde uma equipe treinada para realizar o atendimento.
    • Se houver risco imediato de afogamento, a retirada da água passa a ser prioridade.

O que não fazer

  • Não puxe a vítima pelos braços.
    • Não tente colocá-la sentada ou em pé.
    • Não peça para a pessoa caminhar para verificar se consegue andar.
    • Não movimente o pescoço para testar a presença de dor.
    • Não tente corrigir manualmente a posição da cabeça.
    • Não coloque colar cervical improvisado.

Prevenção no banho de mar

Respeite os salva-vidas, observe as condições do mar, evite mergulhos em águas rasas e tenha atenção especial a bancos de areia e locais desconhecidos. Uma área aparentemente tranquila também pode oferecer risco de impacto contra o fundo.


Coluna Saúde e Bem-estar: informação que faz bem

Por: jornalista Jademilson Silva

Matéria originalmente publicada em: www.folhape.com.br


 

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*