Setembro Rubi alerta para um câncer que ainda chega tarde ao diagnóstico

A diretora médica da Endogastro Recife, Leliane Alencar, fala sobre o Setembro Rubi para a coluna Saíde e Bem-estar do Blog Polo Médico

||Coluna Saúde e Bem-estar||


Conversamos com a diretora médica da Endogastro Recife, Leliane Alencar, sobre a previsão de 22,5 mil novos casos de câncer de estômago por ano no Brasil entre 2026 e 2028 e os principais fatores de risco da doença


Há doenças que começam silenciosamente e só chamam atenção quando o organismo já dá sinais mais evidentes de que algo não vai bem. O câncer de estômago está entre elas. Em seus estágios iniciais, a doença frequentemente não apresenta sintomas específicos ou pode ser confundida com problemas digestivos bastante comuns, como gastrite, refluxo e desconforto após as refeições. Essa característica ajuda a explicar o desafio de identificar o tumor em fases iniciais.

O alerta ganha força durante o Setembro Rubi, campanha de conscientização sobre o câncer gástrico. E os números dimensionam a importância do tema. Segundo a estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer, o Brasil deverá registrar 22.530 novos casos de câncer de estômago a cada ano entre 2026 e 2028. Desse total, 13.830 devem ocorrer em homens e 8.700 em mulheres. O risco estimado é de 13,25 casos para cada 100 mil homens e 7,92 para cada 100 mil mulheres.

A diferença entre os sexos é um dos elementos que chamam atenção na fotografia epidemiológica. O câncer gástrico acomete predominantemente homens e costuma atingir pessoas mais velhas. Segundo o INCA, cerca de 95% dos tumores gástricos são adenocarcinomas, que acometem predominantemente homens, geralmente entre 60 e 70 anos. Aproximadamente 65% dos diagnósticos ocorrem em pessoas com mais de 50 anos.

A idade aumenta o risco, mas não elimina o alerta para os mais jovens

Embora o envelhecimento seja um dos principais fatores associados ao câncer gástrico, idade não deve funcionar como uma espécie de salvo-conduto. Uma pessoa jovem com sintomas persistentes ou fatores de risco relevantes também precisa de avaliação médica individualizada.

A questão central não é transformar qualquer desconforto abdominal em suspeita de câncer, mas evitar que sintomas recorrentes sejam naturalizados por meses ou anos sem investigação.

Médica Leliane Alencar – diretora médica da Endogastro Recife e Presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestina

“A idade é, sem dúvida, um fator importante quando falamos em câncer de estômago, mas não podemos transformar isso em uma regra absoluta. O que deve chamar atenção é a persistência dos sintomas, principalmente quando eles vêm acompanhados de perda de peso, falta de apetite, anemia ou outros sinais de alerta. A avaliação médica é que vai determinar a necessidade ou não de investigação endoscópica”, informa a médica endoscopista, diretora médica da Endogastro Recife e presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (SOBED-PE), Leliane Alencar


O número que chama atenção no Nordeste

Existe ainda um componente regional que merece destaque. A estimativa 2026–2028 do INCA mostra que o câncer de estômago tem importante presença no Norte e Nordeste. Entre os homens nordestinos, é o terceiro câncer mais incidente, com risco estimado de 12,99 casos por 100 mil homens. Entre as mulheres, ocupa a sexta posição, com 8,00 casos por 100 mil mulheres.

O dado abre uma discussão que ultrapassa o consultório. A ocorrência do câncer gástrico resulta da interação entre fatores biológicos, ambientais, comportamentais e condições de vida, além das possibilidades de acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento.

A médica Leliane Alencar informa: 

“Quando observamos os números por região, percebemos que o câncer gástrico também é uma questão de saúde pública. Não podemos olhar apenas para o indivíduo, mas para todo o contexto que envolve alimentação, condições de vida, fatores ambientais, acesso aos serviços de saúde e diagnóstico. No Nordeste, esse olhar precisa ser ainda mais atento”.

| Os números do câncer de estômago no Brasil

22.530
novos casos estimados por ano entre 2026 e 2028.

13.830
casos estimados anualmente entre homens.

8.700 – casos estimados anualmente entre mulheres.

5º lugar – posição do câncer de estômago entre os tipos de câncer mais incidentes no Brasil, excluídos os tumores de pele não melanoma.

60 a 70 anos – faixa etária predominante para o adenocarcinoma gástrico.

65% – dos diagnósticos ocorrem em pessoas com mais de 50 anos.

Fonte: INCA, Estimativa 2026–2028.

O inimigo invisível chamado H. pylori

Entre os fatores associados ao câncer gástrico, existe um personagem microscópico que merece atenção especial: o Helicobacter pylori, bactéria capaz de colonizar o estômago e provocar inflamação persistente.

O INCA aponta a infecção pelo H. pylori como um importante fator associado ao câncer gástrico. A bactéria, entretanto, não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá câncer. O processo é multifatorial e envolve a interação entre infecção, características da mucosa gástrica, genética, alimentação e outros fatores ambientais.

Essa é uma informação importante porque ajuda a combater dois extremos: o de ignorar a bactéria e o de tratá-la como sinônimo de câncer.

“O H. pylori merece muita atenção porque é uma bactéria capaz de provocar uma inflamação crônica no estômago e está entre os principais fatores relacionados ao câncer gástrico. Mas ter H. pylori não significa ter câncer. O que precisamos é identificar os pacientes que devem ser investigados e, quando houver indicação, realizar o tratamento adequado e o acompanhamento necessário”,  Médica Leliane Alencar

A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer, ligada à OMS, reforça a dimensão do problema ao apontar o potencial de prevenção associado ao controle da infecção. Em análise publicada em 2025, a IARC estimou que uma parcela expressiva dos futuros casos de câncer gástrico poderia ser atribuída ao H. pylori. O dado reforça a importância da prevenção, mas não significa que cada caso individual possa ser atribuído exclusivamente à bactéria.

Muito sal, cigarro e álcool: o que chega ao prato também importa

A prevenção do câncer de estômago não se resume à investigação do H. pylori.

O INCA associa a doença a excesso de gordura corporal, consumo de álcool, tabagismo, ingestão excessiva de sal e alimentos conservados no sal, baixa ingestão de frutas e vegetais, além de outros fatores. O Instituto também cita a exposição a água proveniente de poços com alta concentração de nitrato e determinadas exposições ocupacionais.

O excesso de sal merece atenção especial. O padrão alimentar não deve ser analisado isoladamente, mas o consumo frequente de alimentos muito salgados ou preservados em sal aparecem entre os fatores associados ao risco de câncer gástrico.

“A prevenção não está em um único alimento ou em uma dieta milagrosa. Ela está no conjunto de hábitos. Reduzir o excesso de sal, evitar o tabagismo, moderar o consumo de álcool, manter um peso adequado e ter uma alimentação com maior presença de frutas e vegetais são atitudes que fazem parte de uma estratégia mais ampla de prevenção do câncer”, diz a médica endoscopista e presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (SOBED-PE), Leliane Alencar

O estômago também sente os efeitos do cigarro

O tabagismo é outro fator modificável relacionado ao câncer gástrico. A interrupção do hábito reduz o risco de diferentes tipos de câncer e traz benefícios para praticamente todo o organismo.

O ponto importante para a reportagem é mostrar que prevenção não significa apenas “fazer exames”. Ela começa antes, com escolhas e cuidados capazes de diminuir a exposição a fatores de risco.

Para Leliane Alencar

“Existe uma cultura de que prevenção de câncer significa apenas realizar exames. Os exames são fundamentais quando existe indicação, mas prevenção também é reduzir os fatores de risco. Parar de fumar, reduzir o consumo de álcool, cuidar da alimentação e do peso são atitudes concretas que fazem parte desse processo”.

Gastrite é câncer? Não. Mas existe uma história entre eles que merece atenção

Gastrite não é sinônimo de câncer. Entretanto, determinadas alterações crônicas da mucosa gástrica, como gastrite atrófica e metaplasia intestinal, estão associadas a maior risco. O próprio H. pylori pode participar desse processo inflamatório.

“Precisamos ter muito cuidado com a expressão ‘gastrite vira câncer’, porque ela simplifica demais um processo que é muito mais complexo. A maioria das pessoas que têm gastrite não terá câncer. Existem, porém, determinadas alterações da mucosa que precisam de acompanhamento, e é justamente por isso que a avaliação especializada é importante”, informa a médica endoscopista Leliane Alencar

Quando o desconforto deixa de ser apenas um desconforto?

Perda de peso sem explicação, perda de apetite, sensação de estômago cheio, náuseas, vômitos, dor ou desconforto na parte superior do abdômen e sinais de sangramento estão entre os sintomas que podem aparecer no câncer gástrico.

O problema é que muitos deles também aparecem em doenças muito mais comuns e benignas.

É justamente essa semelhança que pode atrasar a investigação.

Leliane Alencar:

“O problema é que o estômago pode apresentar sintomas muito inespecíficos. Empachamento, queimação, dor, náusea ou perda de apetite podem ter inúmeras causas. O que não devemos fazer é conviver indefinidamente com um sintoma que persiste ou piora sem procurar entender a sua origem”.

Endoscopia: o exame que permite enxergar o que está acontecendo

A endoscopia digestiva alta tem papel fundamental na investigação do câncer gástrico. O exame permite visualizar diretamente o esôfago, o estômago e o duodeno. Quando existe uma alteração suspeita, é possível realizar biópsias durante o procedimento.

A confirmação do câncer depende da análise do material coletado. Outros exames podem ser solicitados posteriormente para avaliar a extensão da doença e orientar o tratamento.

Mas existe um ponto que precisa ficar muito claro: endoscopia não significa rastreamento indiscriminado para toda a população. O INCA informa que não há evidência suficiente para recomendar rastreamento populacional do câncer de estômago no Brasil.

“A endoscopia é uma ferramenta extremamente importante porque permite visualizar a mucosa e, quando necessário, retirar fragmentos para análise. Mas é importante deixar claro que não estamos falando de fazer endoscopia indiscriminadamente em toda a população. A indicação precisa considerar idade, sintomas, histórico familiar, fatores de risco e a avaliação médica de cada paciente”.

Homem tem mais câncer de estômago. Por quê?

Os números são objetivos: para cada ano do triênio 2026–2028, o INCA estima 13.830 casos em homens e 8.700 em mulheres. O risco estimado também é maior entre eles.

A diferença entre os sexos não deve, porém, ser interpretada como uma doença exclusivamente masculina. Mulheres também estão entre as pessoas afetadas e precisam estar atentas aos fatores de risco e aos sinais de alerta.

“O câncer gástrico é mais frequente nos homens, mas isso não deve criar uma falsa percepção de que as mulheres estão protegidas. A doença existe nos dois sexos. A diferença epidemiológica serve, principalmente, para reforçar a atenção aos grupos de maior risco”.

O que o Setembro Rubi precisa mudar?

Mais do que estimular uma corrida aos consultórios, o Setembro Rubi pode ajudar a construir uma cultura de atenção aos sinais, prevenção dos fatores de risco e diagnóstico adequado.

O cenário brasileiro exige esse olhar. São mais de 22 mil novos casos estimados anualmente para o próximo triênio, com diferenças importantes entre homens e mulheres e também entre as regiões do país.

A prevenção passa por medidas conhecidas: não fumar, evitar bebidas alcoólicas, manter peso adequado, praticar atividade física e reduzir o consumo de alimentos muito salgados ou conservados em sal. Quando há fatores de risco ou sintomas persistentes, a avaliação médica individualizada ganha importância.

“O Setembro Rubi é uma oportunidade de falar sobre uma doença que ainda precisa ser mais conhecida pela população. A informação não deve gerar medo. Deve gerar consciência. Conhecer os fatores de risco, reconhecer sinais que merecem investigação e procurar assistência médica no momento adequado são atitudes que podem fazer diferença”, diz Leliane Alencar

| MITO OU VERDADE?

“Quem tem H. pylori terá câncer de estômago”.

MITO. A infecção é um importante fator de risco, mas não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá câncer.

“Gastrite é uma doença que vira câncer”.

MITO. Gastrite não é sinônimo de câncer. Algumas alterações crônicas da mucosa, entretanto, estão associadas a maior risco.

“Câncer de estômago sempre provoca dor”.

MITO. Nos estágios iniciais, os sintomas podem ser discretos, inespecíficos ou inexistentes.

“A endoscopia pode identificar uma lesão suspeita e permitir uma biópsia”.

VERDADE. O exame permite visualizar a mucosa e coletar material para análise.

“Todo mundo deve fazer endoscopia para prevenir câncer gástrico”.

MITO. Não há recomendação de rastreamento populacional indiscriminado no Brasil. A indicação deve ser individualizada.

| 5 atitudes que cabem na rotina

  1. Não fumar.
  2. Evitar ou reduzir o consumo de bebidas alcoólicas.
  3. Reduzir o excesso de sal e alimentos conservados em sal.
  4. Manter peso adequado e praticar atividade física.
  5. Não normalizar sintomas digestivos persistentes.

SOBRE – A Endogastro Recife é um serviço especializado em gastroenterologia e endoscopia digestiva, com atuação em diagnóstico, tratamento e acompanhamento de doenças do aparelho digestivo. Com mais de 45 anos de mercado, a instituição também mantém a Endogastro Academy, iniciativa voltada à educação continuada de profissionais da saúde por meio de cursos, simpósios e atividades de atualização científica. A Endogastro Recife integra o Grupo Evipar, holding empresarial com atuação em desenvolvimento imobiliário, agronegócio, energia renovável e saúde.


 

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