||Coluna Saúde e Bem-estar||
Gustavo Miranda, presidente da Sociedade Pernambucana de Clínica Médica e médico do Real Hospital (RHP), diz que vitaminas e suplementos não devem ser usados indiscriminadamente e alerta para os riscos de toxicidade, tratamentos intravenosos sem indicação e diagnósticos baseados apenas em exames
A ideia de que vitaminas, minerais e suplementos são sempre aliados da saúde ainda alimenta um comportamento cada vez mais comum: diante de cansaço, baixa disposição ou alterações em exames, muitas pessoas recorrem por conta própria a cápsulas, fórmulas manipuladas e até aplicações intravenosas. O problema é que nutrientes também podem provocar efeitos adversos quando consumidos em doses elevadas ou sem uma indicação clínica clara. O conceito de que, quanto mais vitaminas o organismo recebe, melhor, não encontra respaldo na medicina baseada em evidências.
Para Gustavo Miranda, presidente da Sociedade Pernambucana de Clínica Médica e médico do Real Hospital Português, a suplementação precisa partir de uma avaliação individualizada.

“Esse risco aparece quando a suplementação é feita de forma indiscriminada, em doses elevadas ou por longos períodos. Vitaminas também podem causar toxicidade. O excesso de vitamina D pode levar à hipercalcemia e lesão renal, a vitamina A pode causar hepatotoxicidade e a vitamina B6, neuropatia. Reposições devem ser orientadas por risco individual e evidência científica, não pela ideia de que quanto mais, melhor”, afirma.
A preocupação não é apenas teórica. O excesso de vitamina D, por exemplo, pode provocar aumento do cálcio no sangue e, em casos graves, comprometer os rins. Já doses elevadas de vitamina A estão associadas a toxicidade hepática, enquanto o uso excessivo e prolongado de vitamina B6 pode causar lesões neurológicas. Dados do National Institutes of Health também alertam que quantidades elevadas de vitamina D provenientes de suplementos podem provocar náuseas, fraqueza, desidratação, cálculos renais e, em situações extremas, insuficiência renal.
Cansaço não significa falta de vitamina
Um dos principais motivos que levam pessoas a buscar suplementação é a sensação de cansaço. O sintoma, entretanto, é inespecífico e pode estar relacionado a uma série de condições que precisam ser investigadas antes de qualquer reposição. Sono insuficiente, excesso de trabalho e sedentarismo podem explicar uma fadiga passageira, mas alterações persistentes exigem uma avaliação mais ampla.
“A fadiga precisa ser interpretada dentro do cenário do paciente: duração, intensidade, impacto funcional e presença de outros sintomas. Cansaço relacionado a privação de sono, excesso de trabalho ou sedentarismo é diferente de uma fadiga progressiva, desproporcional, associada a perda de peso, falta de ar, febre, sangramentos ou outras alterações”, explica Miranda.
Segundo o médico, antes de atribuir o sintoma à deficiência de vitaminas, é necessário investigar causas frequentes, como anemia, doenças da tireoide, apneia do sono, transtornos do humor, efeitos de medicamentos e outras condições clínicas. A apneia do sono, por exemplo, pode estar associada à sonolência diurna e à redução da qualidade de vida.
Exame de sangue não é receita
Outro equívoco está em transformar qualquer alteração laboratorial em indicação automática de suplementação. Um resultado próximo ao limite de referência não significa, necessariamente, que exista deficiência ou que o paciente precise receber doses elevadas de determinado nutriente.
“O intervalo de referência de um laboratório não deve ser interpretado automaticamente como meta terapêutica. Estar próximo ao limite inferior não significa necessariamente deficiência, assim como estar no limite superior não significa estar mais saudável”, afirma o especialista.
A interpretação precisa considerar sintomas, histórico, fatores de risco e a evidência científica disponível sobre a necessidade de corrigir aquela alteração. “Na medicina, tratamos o paciente e seu risco clínico, e não simplesmente um número no exame”, acrescenta.
Quando a vitamina vai direto para a veia
Mais recentemente, a chamada terapia intravenosa de vitaminas ganhou espaço em clínicas e estabelecimentos voltados ao chamado bem-estar, com promessas de aumentar disposição, melhorar imunidade, potencializar desempenho e promover uma suposta “desintoxicação”. A literatura científica, porém, não sustenta o uso indiscriminado dessas infusões em pessoas saudáveis.
Uma revisão publicada no Drug and Therapeutics Bulletin concluiu que faltam evidências de alta qualidade para demonstrar benefícios de infusões de vitaminas em altas doses na ausência de deficiência específica ou condição médica. A via intravenosa tem indicações clínicas próprias, especialmente em situações nas quais há necessidade médica de administração parenteral.
“Para pessoas saudáveis, sem deficiência documentada ou problema de absorção, não existe evidência robusta de benefício da administração intravenosa de vitaminas para melhorar imunidade, disposição, performance ou ‘desintoxicação’”, afirma Gustavo Miranda. Ele lembra ainda que a via intravenosa não é isenta de riscos, podendo envolver infecção, reação alérgica, trombose e sobrecarga circulatória.
Natural não significa inofensivo
A percepção de que produtos naturais são necessariamente seguros também contribui para a banalização dos suplementos. Vitaminas, minerais, compostos fitoterápicos e outros produtos podem interagir com medicamentos, produzir efeitos adversos e, em determinadas situações, retardar a investigação de uma doença.
“O maior risco é a falsa sensação de segurança. Produtos naturais também podem causar toxicidade, interagir com medicamentos e atrasar o diagnóstico ou tratamento de doenças reais”, alerta o médico.
A suplementação, portanto, não deve ocupar o lugar de medidas comprovadamente importantes para a saúde. Alimentação adequada, atividade física, sono de qualidade, vacinação, controle da pressão arterial e acompanhamento médico continuam sendo pilares da prevenção.
| Suplementação segura: o que considerar
Nem sempre é necessário suplementar: a alimentação pode fornecer grande parte dos nutrientes necessários para pessoas saudáveis.
Dose importa: vitaminas e minerais também podem causar toxicidade quando consumidos em excesso.
Exame não é diagnóstico isolado: resultados laboratoriais devem ser interpretados dentro do contexto clínico.
Cansaço exige investigação: fadiga persistente ou acompanhada de outros sintomas não deve ser automaticamente tratada como deficiência vitamínica.
Infusão intravenosa não é sinônimo de maior benefício: a técnica deve ser utilizada quando houver indicação médica.
Natural não significa seguro: suplementos podem interagir com medicamentos e provocar efeitos adversos.
A orientação médica, portanto, continua sendo o principal filtro entre uma suplementação realmente necessária e o consumo desnecessário de substâncias. O objetivo não é acumular vitaminas no organismo, mas identificar necessidades reais e utilizar cada intervenção na dose correta.
Coluna Saúde e Bem-estar – Informação que faz bem
Por jornalista Jademilson Silva
Matéria originalmente publicada em: www.folhape.com.br

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